O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psicológica caracterizada por padrões persistentes de instabilidade emocional, dificuldades nas relações interpessoais, impulsividade e percepção oscilante de si mesma. Não se trata de “drama” ou “sensibilidade excessiva”, mas de um conjunto de características clínicas descritas há décadas na literatura científica e reconhecidas pelos principais manuais diagnósticos, como o DSM-5.
Do ponto de vista técnico, o TPB envolve três eixos centrais: desregulação emocional, desregulação interpessoal e desregulação comportamental. A desregulação emocional se manifesta por oscilações intensas de humor, hipersensibilidade a rejeições reais ou percebidas e dificuldade em retornar a um estado de equilíbrio após situações estressoras. A desregulação interpessoal aparece em vínculos marcados por idealização e desvalorização, medo intenso de abandono e dificuldades em manter relações estáveis. Já a desregulação comportamental inclui impulsividade, comportamentos autolesivos ou episódios de agir sem planejamento diante de emoções intensas.
As pesquisas apontam que o TPB resulta de uma interação complexa entre fatores biológicos, experiências adversas na infância e padrões de relação internalizados ao longo do desenvolvimento. O modelo biossocial, proposto por Marsha Linehan, descreve que pessoas com TPB possuem uma vulnerabilidade biológica para reagir emocionalmente de forma intensa, combinada com ambientes invalidantes — ambientes que ignoram, minimizam ou punem a expressão emocional. Essa combinação gera dificuldades significativas na aprendizagem de habilidades de autorregulação.
Do ponto de vista neurobiológico, estudos mostram alterações em estruturas relacionadas ao processamento emocional e ao controle de impulsos, como amígdala, ínsula e córtex pré-frontal. Tais achados não explicam sozinhos o transtorno, mas ajudam a compreender porque a experiência interna dessas pessoas tende a ser mais intensa e de difícil modulação.
No campo do tratamento, a Terapia Dialética Comportamental (DBT) é considerada o padrão-ouro, com eficácia comprovada em redução de impulsividade, comportamentos suicidas e hospitalizações. A DBT trabalha quatro módulos principais: regulação emocional, tolerância ao mal-estar, habilidades interpessoais e atenção plena. Outras abordagens também apresentam bons resultados, como Terapia Baseada em Mentalização (MBT), Terapia do Esquema e Terapia Focada na Transferência (TFP). Em modelos baseados em evidências, o foco não é apenas reduzir sintomas, mas promover uma maior capacidade de compreender estados internos, modular afetos e construir relações mais estáveis e funcionais.
Psicoeducação é um elemento central do manejo clínico. Entender o TPB ajuda o paciente a diferenciar sintomas de traços pessoais, a reconhecer padrões de funcionamento e a desenvolver uma postura mais compassiva consigo. Além disso, a terapia geralmente envolve treino de habilidades, identificação de gatilhos emocionais, construção de estratégias de enfrentamento e estabilização comportamental.
O TPB é um diagnóstico que exige cuidado, mas não define a totalidade da pessoa. Estudos longitudinais mostram taxas significativas de remissão ao longo dos anos quando há acesso a tratamento qualificado. Isso reforça a ideia de que, com suporte adequado, é possível alcançar maior estabilidade emocional, autonomia e qualidade de vida. O trabalho terapêutico não se limita a controlar crises, mas a ampliar a capacidade de lidar com a própria experiência interna de maneira segura e funcional.